• Igor Mauricio Barreto

Feiras; livres ou não, orgia de sensações

Porque adoro feiras livres e de comida por aí.

Confesso que quando criança adorava ver e acompanhar minha mãe na cozinha, nas compras. Confesso que até hoje sou bem chegado num supermercado. Mas, de verdade, curto mesmo é a feira.

Há algo de mágico na feira livre. A energia, as barracas, as cores, as pessoas, o mix. Não à toa, a feira é um programa. As pessoas vão pra se divertir, sentir os cheiros as sensações de estar lá, de um barraqueiro lhe chamar, te oferecer, as negociações por descontos...

Meu pai é viciado em feira, especialmente a de sábado ao lado do Caio Martins. Ele vai pra lá às 8h e volta 14h. Fica, conversa, conhece todos os barraqueiros, cisma com a qualidade desse ou daquele. Até na barraca de doce- ele que é diabético- se aboleta. E chega em casa cheio de sacolas, flores, frutas, e acima de tudo com regozijo no rosto. O vício é tamanho, que quando ele não vai, liga pro feirante, manda separar o que quer, da barraca dele e das outras (!!!!!) e vai buscar na casa do barraqueiro depois (!!!!). Mas é bem compreensível, se pensar na nossa relação com a experiência da feira. Ela pode ser um momento íntimo. Um momento que paramos, sentimos os cheiros, nos deliciamos com a provas. Nos permitimos um pastel. Descobrir coisas novas em cada barraca.

Há um troca de gentilezas na feira. Nossa com o feirante, do barraqueiro com a madame, do menino que nos oferece levar as sacolas por uns trocados. Ali, pra mim, o mundo para de girar. Curto por que posso sentir cada momento, cada cheiro, num tempo-espaço diferente, com os caras que pegam direto do cara que produz, com carinho, amor, e dedicação.

Há um troca de gentilezas na feira. Nossa com o feirante, do barraqueiro com a madame, do menino que nos oferece levar as sacolas por uns trocados.

Ainda assim, vemos as feiras minguando, diminuindo. Tenho a impressão que também estamos perdendo nossa relação com a feira. Está ficando mais difícil pro feirante, a falta de tempo, de gentileza, está fazendo aquela energia sumir, e com ela, está indo a feira.

Porém, vemos surgir novas modalidades de feira, as de gastronomia. De maneira diferente, o pressuposto dessas feiras é diminuir a distância que existe entre o cara que, legitimamente, faz seu produto com carinho e amor e que este tenha um diferencial dos outros que estamos acostumados na indústria da alimentação. Lá também há vários dos predicados que achamos nas feiras livres - a gentileza, a presteza, a relação direta com quem faz. Se engana quem ainda não entendeu que existe uma filosofia por trás disso. Sim, os barraqueiros não querem cobrança de ingresso, mesmo sabendo que isso custará caro para que se produza um evento de qualidade. Na verdade a filosofia das feiras é maior. Existem as que são dedicadas aos produtores locais. As que se dedicam aos food trucks (vamos especificamente falar sobre isso depois). As que colocam restaurantes frente a frente com o público. Enfim, existe um movimento de aproximar a gastronomia como é feita dos consumidores.

Isso apenas não é saudável. É imprescindível. Em tempos em que o “raio gourmetizador” está atormentando, nem tão mais silenciosamente assim, as nossas vidas, as feiras são espaços quase democráticos, que nos permitem experimentar, conversar, saber melhor, e curtir de perto a mágica da comida artesanal de qualidade.

O mais incrível é sentir que estes pilares estão sendo sedimentados justamente nos valores que vemos na feiras livres. Isso não se perde. Nunca, em tempo algum. As relações humanas não se esvaem. Assim espero.

Tenho certeza que você, se ainda não foi pescado pelo sabor das feiras, será. Ou eu espero que seja, por você. Se permita sentir isso, se permita ir na feira livre, ou na feira de gastronomia. Pare, ande, veja, coma, e sinta. Você não se arrependerá.

Publicado originalmente em O Fluminense. Republicado agora.

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