• Igor Mauricio Barreto

Será a iminência da era do Temakiojo?

“Primeiro você me azucrina, me entorta a cabeça

Me bota na boca um gosto amargo de fel

Depois vem chorando desculpas, assim meio pedindo

Querendo ganhar um bocado de mel”

Gonzaguinha






30 anos atrás. A porta de entrada da gastronomia internacional, como era chamada, eram os hotéis. Eles investiam muito trazendo talentos de fora, e introduzindo cada vez mais por aqui a estrutura de cozinhas profissionais. Os restaurantes tinham pratos de muitas partes do mundo, mas comer o que era daqui era cafona, demodê. Os que aqui cozinhavam como forma de subsistência, como de tradição no mundo à época, faziam seus pratos típicos para que os incontáveis funcionários dos enormes hotéis comerem, lambendo os beiços. Cozinha como carreira? Só importado mesmo.

Uma década depois, 20 anos de agora. Comunicações em ampla expansão, e mundialização da gastronomia em curso. Os pratos brasileiros mais tradicionais já tinham inebriado os Chefs franceses, que começavam a procurar no terroir a solução para novos sabores.

E daí os anos 90 e a internet. Aí, veio a avalanche de informação. Era tudo pra tudo que é canto, todo mundo começou a descobrir o que rolava em tudo que é lugar. Daí começaram descobrir que dava pra aprender pela internet. Chegaram nas terras tupiniquins o fusions. Muitas misturas de influências, criando cozinhas diferentes e autorais.

Até os 2000, tudo confuso e intenso. Mas daí com a virada no século, muita ressaca. Muita coisa que rolou no 80 e 90 estavam invariavelmente fora de contexto. Ao lado da galopante escalada da hiper industrialização, o oferecimento de novos “produtos”surgindo ( não dá pra chamar de comida), os mercados amadureceram. Muita segmentação. Definitivamente, não existiam mais os “restaurantes internacionais” dos hotéis. Todo tipo de lugar vendendo comida surge, e com ele, começa forte uma demanda por profissionalização. Engatinha a profissionalização do cursos e capacitações. Cozinha definitivamente pode ser uma carreira!

E o ápice foi quando começaram a ensinar pela internet. Quando descobriram que você não precisa ter chancela para ensinar por lá. Qualquer um pode transmitir conhecimento. (?!).

De 2010 para frente. as mudanças rolaram com a confiança de saber pra onde estamos indo. Com ícones nos ajudando, uma mundialização real, cozinha com influências claras dos alimentos regionais a muito esquecidos que estavam timidamente no canto. De onde vem minha comida? Porque não posso escolher hábitos alimentares diferentes meramente por opção? Década da certeza pela origem, crescente revolta com a lixarização que indústria, quase “sem querer” promoveu.

Em meio a isso tudo, sem saber exatamente quando, sem se apresentar, e sem serem convidados, empoderamos os “professores pardais” da cozinha. Na busca por novos sabores, técnicas e cozinhas, começaram a aparecer as loucuras da vida. E sendo propagadas como jenialidades (com j mesmo).

E no último ano da década, este, vem a tona o transbordamento da caixa de gordura do universo. Faz-se o TEMAKIOJO.

Juntando ícones do fracasso industrial das últimas décadas, numa tentativa pseudo-hipster-kitschy, uniu o nori do temaki, recheado por um miojo, na verdade é um produto de uma ação de marketing de guerrilha promovida pela marca mais famosa que não-vou-falar-o-nome-por-não-colocar-um-real-nessa-coluna. O receio é grande, muita gente quis comprar o tal Temakiojo, e tem mais, tem gente que está fazendo de verdade!

Comer ketchup com mousse de chocolate em casa escondido é excêntrico, vender é atestado de confusão.

Genial a iniciativa, que além de expor uma sem noçãozice sem precedentes de alguns, ironizar a gourmetização, ainda pegou bastante gente, inclusive a mim.

Nosso maior dilema é: se há gente querendo comprar isso, o que mais esse povo vai comprar?

Cravo, nosso maior desafio hoje já o referencial ruim das pessoas. E se esse referencial virar o Temakiojo (tenho até vergonha de colocar isso com letra maiúscula)?

Se viveremos em uma era do Temakiojo, prefiro criar uma seita alimentar fundamentalista que só vive excluindo alimentos básicos do ser humano.

Ih... já existe...


Originalmente publicado em Farofa Magazine!

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