• Igor Mauricio Barreto

Não jogues sequer a primeira pedra.

Vamos combinar assim, se você resolver ler esse texto, e já quer me jogar pedras, pode fazê-lo, mas leia até o final, pense 10 min. Depois, pode, combinado?




Tem um bom tempo que não escrevo sobre temas assim. Mas tenho sentido essa necessidade desde que, convidado a participar de uma live com advogados jovens, que têm uma visão do direito bem vanguardista, fui questionado no final o que espero de mudanças nas pessoas com a quarentena. Respondi que gostaria que as pessoas aproveitassem esse tempo para conversar melhor consigo, que aproveitassem essa parada obrigatória para fazer seu universo particular girasse num tempo diferente, naquele em que somos capazes de ver o mundo como Sofia no livro “O Mundo de Sofia”, com o assombro e a curiosidade de quem se permite espantar com sua beleza e complexidade todo dia. Nem sei da onde tirei isso. Mas fez muito sentido para mim. Na verdade, eu bem apostava minhas fichas numa reforma íntima em conjunto, já que acredito que através das nossas posturas e atitudes individuais, somos capazes de mudar o mundo de verdade. O maior ensinamento da quarentena é esse, estamos todos interligados. “Não se trata e pegar, mas de não passar”- sobre o corona;”Não se trata de criticar mas de dar exemplo”- sobre a vida.

É a hora de nos despirmos das nossas certezas absolutas, aquelas tão profundas, que nem pensamos mais nelas, só sabemos que é assim. Viram pilares. e estão em ruínas De alguma forma, isso despertou um questionamento muito desconexo dos limites da nossa liberdade. Até onde meu direito de falar e fazer o que bem quero pode atrapalhar o universo particular das outras pessoas? Estou sendo altruísta, olhando através dos olhos dele? Qual é o limite do respeito ao outro? Me perguntava. Mas parece que o mundo vê de outro jeito. O mundo vê o defeito do outro, quem disse que ele tem direito de falar do que eu não quero que ele fale? Tornamo-nos egocêntricos.

Por que diabos nos tornamos centro do mundo que nem bem nosso é?


“Ninguém nasce odiando pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou por sua religião…”(complemento abaixo)

Nelson Mandela


A alma não tem cor.

Nunca fez sentido para mim, alguém de outra cor, origem, sexualidade ou religião ser considerada diferente de mim. Não faz sentido. Espíritos e corações têm as mesmas cores. Sempre fui criado para ver os preconceitos estruturais que os mais velhos, antigos mesmo, tinham como pitoresco e bizarramente descabível. Esse sempre foi meu pressuposto. E se estendeu por todas as diferenças que encontrei nas pessoas que fui adicionando à minha história na estrada da vida. Não reconheço o racismo como uma forma natural de pensar, é forçado. Pela sociedade, pela criação, pela circunstância, por algo assim!

Não sei dizer se foi asco, angústia ou só um dissabor profundo que senti quando vi o vídeo do homem americano sendo ASSASSINADO pelo policial impassível, como se estivesse do alto de sua certeza de estar fazendo seu trabalho. Senti sim, amargo na boca quando soube da menina Ágatha, morta a tiros dentro da kombi, inocente, assim como quando soube do menino Juan, do João Pedro, assassinado dentro de casa. E tantos outros inocentes que no Brasil que eu não queria, sofrem com a violência. Morreram inocentes. Mas não pensei que morreram por serem negros. Morreram também por serem negros, e por assim os serem, enfrentam mais dificuldades. Não apenas por serem pobres e com menos oportunidades. Não sei bem se não pensei isso por não ser mais negro do que branco, ou por ter tido oportunidades, mas acho que de de fato, por não fazer diferença para mim as pessoas serem pretas, brancas, azuis, amarelas ou roxas, e sim considerá-las todas pessoas.

Senti a dor, a revolta de quem não acreditava naquilo. Mas não senti ódio. Não estou no mood de ódio. Mas como minha Mãe sempre me disse, eu não sou todo mundo. Dava pra sentir o ódio crescendo daqui. E isso faz muito mal. A toda a corrente.

Uma vez, escrevi um texto falando que toda o radicalismo é burro. Continuo achando isso, mas com uma exceção. Sou radicalmente contra respostas com violência e ódio.


“Devolver ódio por ódio, multiplica o ódio, colocando uma escuridão ainda mais profunda à noite desprovida de estrelas. A escuridão não pode eliminar a escuridão: só a luz pode fazer isso. O ódio não pode eliminar o ódio: só o amor pode fazer isso.”

Martin Luther King JR.


“...Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar.”

Nelson Mandela


Em 2013 me senti muito orgulhoso da proporção que nossas manifestações tomaram! Transformar centavos em anos de BASTAS encurralados em nossas gargantas. O gigante acordou.

Mas me sentia inversamente proporcional envergonhado pelo black blocs, que ameaçavam a legitimidade das manifestações sempre numa quebradeira desastrada no final, quando estávamos para ir embora. Para que? Para provar o que a quem? Sem partidos, sem viés oligofrênicos e enlouquecidos, tentávamos fechar as festas que “ELES” usam para se locupletar em qualquer situação, mesmo numa pandemia com milhões de mortos.

E levantamos as bandeiras, com paz, até mesmo os policiais que estavam ali para garantir a ordem, encorparam o coro por mudanças. Até os baderneiros chegarem e ameaçarem usar seus ímpetos adolescentes cheio de energia reprimida por uma causa que sequer sabiam de que se tratava.

Quando começaram as manifestações pela morte do George Floyd, temi por acabar com ódio e violência. Lembra que todo radicalismo é burro? Toda generalização também. Ódio, mágoa e rancor não se combatem com mais ódio.

Chegaram os black blocs ameaçando quem era branco. Xingando policiais. Criando tensões e quebradeiras para… provar algo? Vingar a morte do Floyd? Não sei ao certo se nem eles sabem.

Até que os policiais ajoelharam com os manifestantes e mostraram que:

Nem todo policial é assassino. Nem todo branco é racista. Nem todo imigrante é ruim. Nem todo nordestino é paraíba.

“Não concordo com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o direito de dizê-la”

“Para saber quem controla sua vida, simplesmente descubra, quem você não tem permissão de criticar”

“É difícil libertar os tolos das correntes que eles veneram”

Voltaire


Não importa o quanto você se revoltou, você perdeu ou sofreu, isso não lhe permite ter o direito a quebrar, violar a liberdade ou a paz de outra pessoa que não tem nada diretamente com aquilo. Talvez, se estiver inclinado a isso, será que não há algo lhe influenciando?

Sabe “AQUELES” que sempre aparecem para se locupletar de alguma situação? Nesse momentos influenciam sem aparecer. Heróis de ocasião são eleitos. Antifas da vida tentam justificar uma violência injustificável. Usar a própria causa como um artifício conta o emprego dela mesma. Confuso. Eficaz. Não passará por mim quem tenta a paz com guerra. Quem tenta usar igualdade para tratar os desiguais como forma normal, por sí, de diferenciação.

Há coisa mais linda que os policiais e manifestantes se ajoelhando juntos? Mostrando que não compactuam com isso? É muito mais poderoso que jogar pedra na vitrine da Dolce Gabbana!

Contra os criminosos a letra fria da lei.

A desinformação se combate com mais informação. E pelos que sofrem, AMOR.

Quem foi capaz de mudar o mundo, influenciar a humanidade em mudanças reais. Cite o nome de 5. Verás que foram pela paz.

NUNCA se mudou o mundo para o bem com violência, verbal ou física.

A quem serve? Serve sim, sem perceber, mesmo que sem querer. Quem se locupletou agora com isso?

Continuo fã convicto do direito de todos se manifestarem, se expressarem e sempre o serei. Até o limite da falta de respeito, com folga! Mas jamais, um erro pode justificar o outro, com pesos e medidas diferentes e bizarramente desproporcionais.

Democracia pressupõe direitos e deveres pessoais e coletivos. E você que não se manifestou sobre o assunto, não se preocupe, você não é cúmplice como insistem alguns. Você pode ser sim uma boa pessoa. Racistas não são inteligentes nem boas pessoas. Violentos não são inteligentes nem boas pessoas. Eles precisam de amor, a arma mais poderosa da humanidade, usada por Buda, Jesus, Maomé, irmã Dulce, Gandhi, e muitos outros. Sabe quem usou a violência? O policial que matou George Floyd. Não se permita ser usado, sem saber. Não se permita ser violento.

É uma nova era de regeneração, e não de nos deixemos separar para sermos conquistados.

Que atire a primeira pedra quem não quer o caminho do amor.





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