• Igor Mauricio Barreto

Doce de leite talhado de vovó Carmelita

Minha avó tinha um doce que nunca saiu de nossas memórias mais gostosas.



Dona Carmelita Rocha, já com mais de 90 anos

Sutilmente a luz entrava pela janela velha de madeira que havia sido pintada recentemente. Aquela luz da cozinha era inconfundível para mim. Parecia perfeita em certa medida. Sempre me posicionava no mesmo lugar, em frente a porta da pequena despensa onde ficavam os pouco produtos industrializados que havia naquela casa grande da fazenda.


Eram duas cozinhas, a mais recente, que eu adorava estar e ver meio de lado o movimento de pessoas, e calma e a ternura da minha avó distribuindo funções, e a pequena, do lado de fora, mais escura e sombria, onde ficava o fogão a lenha. Confesso que dessa, eu passava longe, não por medo da escuridão, nem pelo cheiro forte de madeira queimada, mas em especial pelas galinhas depenadas que ora estavam ciscando no quintal, ora estavam penduradas por lá.

Aquela luz da cozinha era inconfundível para mim. Parecia perfeita em certa medida.

Em verdade, de minha memórias de infância naquela cozinha, na fazenda Lajes, ao pé da serra do Lima no meio do sofrido sertão nordestino, nada se compara ao cheiro do doce de leite que minha avó sempre reservava para o fim da tarde para fazer.


Não sei bem porque ela fazia nesse horário. Com certeza não pela luz perfeita que entrava por aquela janela, mas talvez para que os netos comessem quando voltavam para o banho da noite, ou mesmo para distribuir para as dezenas de colonos que se juntavam em torno de sua cadeira de balanço na hora das novelas para assistir na única televisão da propriedade, através da parabólica que só ali tinha, a novela das sete, o jornal nacional e a nova das oito- ainda as oito na época. Sair de lá depois desse horário era como voltar da noitada pela manhã para aquele povo acolhedor e feliz.


De fato, eu estava lá, na cozinha, vendo mais uma vez ela mexer aquela panela aquela hora, com aquela luz, e aquele cheiro que não esqueço. Até que ela me chamava. e perguntava se eu queria ajudar. Nunca dava tempo, sempre apareciam os meninos para caçarmos de baladera. E eu sempre ia procurar rolinhas e preás. E nunca aprendi a fazer o doce de leite talhado.


Na verdade, nunca vou fazer aquele doce de leite talhado. Não tenho o leito gordo quase direto da teta da vaca. Não tenho o limão cravo do pé que ficava perto das galinhas, atrás da casa grande. E não tenho o amor que aquele ser iluminado tinha, para transformar um doce tão simples em momentos quase eternos para seus netos, que sentem cada pedacinho dele na boca quando lembramos.


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